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A entrevista nunca publicada do Cientísta Werner Von Braun - Na íntegra

Professor Mario Giudicelli - BRASIL e USA

Consultor

 

 

A ENTREVISTA NUNCA PUBLICADA DE
WERNHER VON BRAUN


Pouco depois do grande sucesso da chegada do homem à lua, o cientista alemão, em Huntsville, Alabama, voltou a conversar demoradamente com o jornalista Mário Giudicelli.

Texto de Mário Giudicelli

Meu primeiro contato com o cientista alemão Dr. Wernher Von Braun ocorreu em meio a um calor insuportável nas areias da praia de Copacabana. Eu era repórter do jornal O GLOBO por volta de fevereiro de 1964, quando meu chefe de redação, Walter Salles, determinou que eu fosse entrevistar o cientista alemão, que estava hospedado no hotel Copacabana Palace. Por sorte, não foi difícil localizá-lo e isso porque no momento exato em que cheguei ao hotel ele, com um longo short negro, num grande contraste com suas pernas bem brancas, começava a atravessar a calçada da Avenida Atlântica para dirigir-se à praia. O que sim tornou meu trabalho inicialmente um pouco difícil foi a circunstância de que o Dr. Von Braun queria, apenas, descansar nas areias da praia e, além disso, foi logo dizendo que não gostava de conversar com jornalistas porque, segundo ele, nós jornalistas alterávamos tudo o que ele dizia. Contudo, tive sorte em quebrar o gelo (se é que poderia haver gelo no meio do calor da praia infernalmente quente),primeiro porque lhe revelei que o grande aparelho que eu trazia comigo,  recém adquirido nos Estados Unidos, era um pesado  e moderníssimo gravador de som portátil – um trambolhão que pesava uns 8 quilos – e que portanto suas palavras ficariam gravadas sem perigo de interpretações erradas e, segundo, porque prometi que somente queria saber sua impressão sobre a vida e o destino da humanidade, mas nada de foguetes ou explicações técnicas.

Para fazer de uma estória longa uma estória curta, depois de duas horas de um longo papo com o Dr Braun, ajoelhado na areia da praia com terno azul e gravata, debaixo de um sol insuportável e desejando trocar de roupa porque estava muito suado, tive a má sorte de me machucar, seriamente, no elevador do meu apartamento ( que se localizava há apenas duas quadras do hotel). Telefonei, então, para a redação; expliquei que não tinha condições para retornar ao jornal para levar a matéria escrita e pedi ao Salles que mandasse um portador apanhar o texto que estaria pronto em duas horas. Para meu espanto e não dando a menor importância ao meu ferimento no joelho, ele disse que não precisava retornar ao jornal, e, no dia seguinte, sem qualquer explicação, fui despedido. E a entrevista com o Dr. Braun ficou apenas guardada nos meus arquivos.

NOVO CASUAL ENCONTRO COM VON BRAUN

Vários anos se passaram depois desse encontro com o notável cientista alemão. Finalmente, em 1970, numa missão especial acompanhando o líder da maioria do governo na Câmara de Deputados, num passeio pelos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, nosso programa oficial incluía uma visita ao Centro Espacial da NASA em Huntsville, estado do Alabama e, surpresa, surpresa, um encontro com o mesmo Dr. Wernher Von Braun, agora cidadão norte-americano e diretor desse Centro Científico no sul dos Estados Unidos. Só que desta vez nossa palestra ocupou toda uma tarde num confortável escritório com ar condicionado, quando tive a oportunidade de rapidamente fazer-lhe uma tradução simultânea do que havia escrito anos antes para o jornal O GLOBO.

Ele se divertiu ao recordar-lhe os  cigarros que lhe ofereci  na prisão de Peneemunde e, também,  do meu enorme gravador portátil, muito pesado, uma grande novidade jornalística naquela época, que o fez confiar que nenhuma palavra do que ele viesse a contar seria adulterada. E dessa maneira, depois de recordar o texto completo de tudo o que ele me havia contado, o Dr Van Braun iniciou sua longa e interessante entrevista comigo:

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Giudicelli - Dr Braun, mais ou menos em novembro de 1946, depois que os chamados “criminosos nazistas” tinham sido julgados em Nuremberg; 15 meses  após a rendição do Japão, como consequência das duas bombas atômicas lançadas sobre Nagasaki e Hiroshima, o Dr Gordon Dean, Presidente da Comissão de Energia Nuclear, decidiu, por ordem do Presidente Truman, viajar por vários países importantes do mundo, visando explicar a esse vasto público assustado que os Estados Unidos não pretendiam ser uma espécie de monstro bicho papão, nem, tampouco, tinham qualquer intenção de fazer com que o mundo se rendesse em face do novo e imenso poder nuclear dos Estados Unidos. Ele procurava explicar que na democracia norte-americana não havia lugar internamente para governos totalitários, violentos, agressivos e isso porque como o poder americano estava sujeito aos pesos e contrapesos ( “checks and balances”) decorrentes da existência de um Senado, de uma Câmara de Deputados, de um órgão dirimível de conflitos, como a Corte Suprema, e um Executivo com poderes limitados e controlados, jamais os americanos usariam sua força para fazer contra outros aquilo que era ilegal fazer internamente. Agora, entretanto, com os foguetes americanos podendo atingir a lua, não ficaria o poder bélico dos Estados Unidos ainda mais perigoso?

Von Braun : Se esse poder estivesse hoje nas mãos dos governos da imensa maioria das nações, sejam elas na maior parte das Américas, na Europa , África ou Ásia, é muito provável que esse poder nuclear e os foguetes que construímos pudessem realmente assustar toda a população mundial. Mas nos Estados Unidos, a meu ver, isso é completamente impossíve, porque a democracia americana é um instrumento muito poderoso que impede que essa nação se transforme em algo parecido com o nazismo ou o estalinismo.

Giudicelli - Mas o Senhor mesmo, que eu conheci em Peneemunde , foi um importante auxiliar de Adolf Hitler, ao fabricar o primeiro avião a jato e os foguetes V-1 e V-2, que tanto pavor causaram na Inglaterra, durante a parte final de 1944 e começo de 1945. Por que razão sua opinião hoje é tão contrária ao seu apoio ao nazismo antes do final da II Guerra Mundial ?

Von Braun - Bem, em primeiro lugar, não fui eu que fabriquei o avião a jato ME302. Ele foi produzido pelos cientistas da Messerschmidt . Minha contribuição com relação aos foguetes V-1 e V-2 foi, de certo modo, limitada. Eu era apenas parte de uma excelente equipe, mas não era a figura principal. O nosso principal cientista e chefe era o Dr Dornmeyer. Lembre-se que eu nem ainda havia chegado aos 30 anos de idade. Sem dúvida que, como cientista e mesmo como qualquer cidadão, eu era um patriota alemão e fui, como todos os jovens do meu país, pesadamente influenciado pelo governo de Adolf Hitler. O que ocorreu comigo foi exatamente o mesmo que aconteceu com qualquer cidadão patriota de um país envolvido numa guerra. As nossas mentes ficam mais ou menos fechadas, porque nosso pensamento não é propriamente saber se os homens que conduziram a guerra do nosso lado tinham ou não tinham razão. É a nossa pátria que está ameaçada, e  como a fé numa religião qualquer, depende de um sentimento irracional, que não se explica racionalmente. É somente depois que determinados acontecimentos extremamente sérios e importantes ocorrem, que os mais bem informados mudam de opinião. Veja o caso da guerra no Vietnam. A imensa maioria do povo americano apoiou essa guerra, como também apoiou o Presidente Truman, e o Presidente Eisenhower; à  imprensa foi somente muito depois que esse povo, horrorizado, ficou sabendo do caso do genocídio de Mylai,causado pelo tenente Calley. Na Alemanha e na distante Holanda que estava sob nosso poder, mesmo nós os cientistas em trabalhos tão importantes e vitais como em Peneemunde, nada sabíamos sobre as barbaridades ordenadas por Goering ou Heinrich Himler. Até mesmo o braço direito cultural de Adolf Hitler, que foi o seu arquiteto Albert Speer, e que o via praticamente todos os dias, tinha muito poucas informações sobre o que estava ocorrendo nos campos de concentração distantes e pouco falados, de Dachau, Buchenwald ou Auschwitz. Na Holanda, onde nós estávamos trabalhando intensamente fazia dois anos, nenhum desses acontecimentos chegava aos nossos ouvidos, sobretudo, porque como cientistas e interessados em sensacionais descobertas, a política internacional era algo que não nos interessava, a não ser o fato de que não queríamos que caíssem bombas em nossas cabeças.

Giudicelli - Perdoe-me apresentar a pergunta dentro de termos que possam parecer ofensivos, mas o que o levou a mudar da camisa do nazismo, para a camisa de democrata e colocar sua impressionante ciência a serviço do seu adversário de ontem ?

Von Braun - Bem, primeiramente, eu nunca fui o que se poderia chamar de nazista. A política nunca me interessou. E não só a mim, como a todos os meus colegas em Peneemunde., Trabalhei simplesmente com a tradicional firmeza, dedicação, pontualidade e técnica que são características bem conhecidas dos alemães em suas realizações científicas. Internamente, evitávamos falar sobre política, não apenas por prudência, porque conhecíamos que os agentes da Gestapo estavam infiltrados em todos os locais, inclusive em nossa área, mas também porque, sinceramente, nosso trabalho científico era altamente interessante, apaixonante e atingir o espaço, para nós, desviava nossa atenção até mesmo do sexo ( disse o Dr Braun com um sorriso maroto e piscando) ou das refeições. Ora, quando nos demos conta, em 1945, de que os exércitos americanos já se achavam a pouca distância de nossas instalações, nossa preocupação não era belicosa , isto é, não estávamos pensando em largar nosso trabalho e pegar num fuzil para atirar contra soldados ou tanques, inclusive porque não tínhamos nenhum treinamento militar para isso. E você ali me encontrou preso.
Nosso pensamento em face da incontestável vitória aliada não foi a de que os generais vitoriosos nos fossem colocar num paredão de fuzilamento e metralhar toda nossa equipe científica, que severamente incomodava o povo britânico do outro lado do canal com nossas bombas imprecisas.

Giudicelli - O Sr então está-nos dizendo que não tinha aquilo que se chama normalmente de “ódio de guerra” contra o adversário. O Sr não tinha vontade de matar americanos ?

Von Braun - Em nenhum momento. O que estávamos pensando era a melhor forma de procurar proteger nossos instrumentos contra o bombardeio aliado, ao mesmo tempo em que buscávamos alguma forma menos arriscada de impedir que os próprios nazistas, por ordem de Adolf Hitler, colocassem bombas nas nossas instalações, e isso de forma a não dar a impressão aos oficiais nazistas da Gestapo, que andavam pelas proximidades, de que estávamos praticando aquilo que eles pudessem considerar como “alta traição”. Mas havia outro aspecto psicológico importante a considerar também. Nosso primeiro pensamento, logo que iniciamos nossas pesquisas relacionadas com foguetes a jato, era, naturalmente, o de glorificarmos nossa pátria e sermos também admirados por nosso próprio povo. Todos nós seres humanos queremos ser amados, queremos ter o reconhecimento público, queremos ser admirados. E se isso puder ocorrer dentro do nosso idioma e dentro de nossa pátria, tanto melhor. Ora, quando compreendemos que a guerra estava perdida e que a vitória tinha sido conseguida pelo ocidente, pelos aliados e pela democracia ( uma questão social e política que conhecíamos pouco porque nosso tempo era usado apenas dentro da ciência espacial) raciocinamos que teríamos simplesmente que levantar acampamento, fechar nossos laboratórios, interromper nossas pesquisas, levantar a bandeira branca e oferecer nossa ciência e nossa pesquisa para os novos líderes.

Giudicelli – Mas isso me soa como coisa cínica, oportunista. Que tem o senhor a dizer sobre isso ?

Von Braun – “Longe disso ! No nosso trabalho o que realmente desejávamos, como cientistas, era inventar algo novo e sensacional para o mundo. O uso da V-1 e V-2 foi uma espécie de sub produto de nossa capacidade científica, que só se tornou possível porque o governo alemão nos forneceu amplos recursos para estudarmos e desenvolvermos nossa ciência espacial. Nós, pessoalmente como cientistas, não desejávamos matar ninguém. Tão logo fomos levados para os Estados Unidos e agora produzindo nova ciência para a democracia americana, ali também, em termos práticos, o que ocorreu foi que tivemos enorme sucesso, porque os vastos recursos da NASA vieram inicialmente da guerra fria alimentada de um lado pelo Sr. Kruschev, na União Soviética, e pelo Presidente John Kennedy e seus assessores, nos Estados Unidos. Em outras palavras, o tremendo sucesso espacial que obtivemos foi o resultado de somas enormes, que provinham de um medo natural contra a ameaça e o poder expansionista da União Soviética, somado ao desejo competitivo norte-americano de enfrentar o sucesso inicial de Yuri Gagarin.”

Giudicelli :  Como explica que um país tão enormemente informado e ilustrado, com altíssimo percentual de universitários, com cidadãos como Beethoven e Kant tenha caído sob  o total poder de influência de um Adolf Hitler ?

Von Braun : Pelas mesmas razões que  vocês no Brasil; aqui, também, nos Estados Unidos nos apaixonamos por torcer por clubes de futebol, por Lana Turner  ou Clark Gable. As massas são facilmente influenciáveis com  a combinação de vários elementos :  o poder da palavra, , a personalidade  do  líder, as condições sociais ou econômicas do momento e o estado de ignorância  sobre política ou  condição do pais de um modo geral.Coloque tudo isso num saco e você leva as massas para qualquer lado. No caso da Alemanha nós tínhamos perdido a  Primeira Guerra Mundial e sofríamos vários problemas.  Logo apareceu um brilhante orador, que se valendo dessa situação  incrivelmente instável e dramática, levantou as massas, sobretudo porque  os grandes industriais alemães, que pagavam agora o preço da derrota, viam em Adolf Hitler uma pessoa que os ajudaria a recuperar as perdas.

Giudicelli  - Mas o senhor não poderia estar incluído nesse grupo de pessoas.  O Sr é um intelectual, um cientista, e, portanto, não se deixaria levar por demagogos

Von Braun :  Sem dúvida, mas eu tinha minha atenção voltada essencialmente para ter um bom emprego,  num tema que me apaixonava e pertencia a um grupo quase que fechado, que imaginava coisas  enlouquecidas sobre as possibilidades de foguetes poderosos, que atingiriam  alturas inconcebíveis.   A política, as aventuras amorosas não faziam parte de nosso dia-a-dia. Nosso tempo livre era para ler revistas cientificas, mas os jornais ficavam de lado. Além disso, éramos, de um certo modo, influenciados pela ação da imprensa e tínhamos uma  devida atitude de preguiça intelectual para  desafiar aquilo que os jornalistas  hitleristas escreviam, mesmo porque, o  governo de Adolf Hitler sempre apoiou organizações que pudessem, eventualmente, servir a seus interesses militares, embora isso , estou certo,  não ocorria com freqüência em nossas mentes.

Giudicelli - : O Sr comentou na primeira parte desta nossa entrevista que o vasto volume de recursos fornecidos pela NASA se deveu ao temor norte-americano em face do expansionismo da União Soviética. Mas eu pergunto: Não poderíamos dizer igualmente que existe de parte dos Estados Unidos uma igual tendência a expandir seu poder e que, portanto, a ação de Stalin e, posteriormente, do Sr Nikita Kruschev, e do Sr. Kosigin, ao lançar-se com todo empenho na corrida espacial  deveu-se às mesmas motivações dos Estados Unidos ?

Von Braun : - Muito provavelmente. Lembre-se do que disse há pouco em relação ao nosso comportamento político na Alemanha de Adolf Hitler, quando nós, cidadãos completamente apolíticos e dedicados somente a nossa ciência, não deixamos durante a maior parte do tempo da existência do governo de Hitler de apoiar, de concordar com o que se fazia e nem procurávamos averiguar o que não se trazia a público, conforme foram os casos dos campos de concentração. O povo e governo russos são, certamente, tão patrióticos e dedicados a sua pátria como são os norte-americanos ou fomos nós há alguns anos na Alemanha. Nem os russos achariam que desejam conquistar o mundo, nem o povo americano aceitaria a acusação de querer mandar no mundo. Mas a verdade é que por baixo da pele de cada um de nós existe um animal feroz, que nunca poderá ser domado e por mais que o procuremos amansar com nossos ensinamentos culturais do ocidente, ou mesmo com qualquer outra forma filosófica de vida, como é o caso do comunismo sem Deus ou o cristianismo com Deus, a humanidade será sempre o que foi e que continuará a ser.

Giudicelli : - Nesse caso então gostaria de saber sua opinião, ou talvez vaticínio do futuro do comunismo.

Von Braun : - Se a história nos ensina alguma coisa, minha impressão é que mais dia menos dia o comunismo terá eventualmente que acabar. E minhas razões nada têm a ver com antipatia ou simpatia políticas por este ou aquele sistema de governo. Minha opinião é que a espécie humana, como qualquer outra espécie animal, vive , luta, trabalha, procura sobreviver ou se comportar dentro exatamente dos preceitos da sobrevivência do mais forte. A igualdade pregada por Lenin e baseada nas idéias econômicas propugnadas por Karl Marx pode ser muito bonita no papel e teoricamente. Mas na prática isso não funciona. Veja agora, por exemplo, que no governo tanto do falecido Stalin, como no do passado Krustchev e atualmente de Kosigin, somente os grandes dirigentes e líderes soviéticos podem passar suas férias nas praias da Criméia. Em Moscou, somente os mesmos líderes é que possuem confortáveis dachas fora de Moscou. A grande massa, em nome da qual se pretendeu estabelecer a justiça e a igualdade social, nada ganhou com o comunismo.

Giudicelli – Mudando de um polo a outro. Durante os poucos dias que o Sr esteve em visita ao Brasil, que impressões pode recolher daquela breve permanência no Rio de Janeiro? O que mais lhe chamou a atenção, tanto do ponto positivo, como do negativo?

Von Braun : Três coisas mais se destacaram na minha impressão e eu as descrevo sem ser por ordem de importância e sim à medida que vou me lembrando delas. A primeira foi  que os brasileiros parecem não se dar conta ou importância da imensa riqueza que possuem em todos os sentidos. Veja este simples exemplo para começar : durante minha permanência no Brasil fui convidado várias vezes para almoçar e jantar. Logo nos dois primeiros dias sempre me levaram a um tipo de restaurante que não parava de servir carnes de todos os tipos , mas não me lembro seu nome.

Giudicelli – Churrascarias ?

Von Braun – Exato. ( ele tentou novamente pronunciar o nome corretamente, mas com alguma dificuldade ). Churrrrrtassscaarhiiiaa.

Giudicelli – E o que havia de especial nessas churrascarias ?

Von Braun – Além do fato curioso que eu nunca havia visto, que é o de servirem os garçons uma enorme variedade de tipos de carne, o que me espantou foi que  pensei, inicialmente, ser aquele tipo de restaurante  algo assim especial e reservado somente para a classe rica, ou para dar boa impressão a visitantes estrangeiros. O público, a massa comum, não poderia ter acesso a tanta carne. Acontece, entretanto, que depois de quatro almoços e jantares em variadas churrascarias sempre cheias e em várias partes diferentes do Rio de Janeiro, num dia quando nosso avião que nos levaria para outra cidade teve um problema técnico e tivemos que seguir de carro, duas horas depois do começo da viagem terrestre paramos num pequeno lugarejo e ai, sem que nada tivesse sido preparado previamente, voltamos a parar noutra enorme churrascaria, também, cheia de gente de todo tipo e onde voltamos a nos empanturrar de uma grande variedade de carnes deliciosas a preços incrivelmente baratos. Ora, isso eu nunca vi em toda minha vida na Alemanha, como também nunca vi mesmo no rico e vasto Estados Unidos. Vocês, portanto, devem sentir-se muito felizes em poder comer, com tanta abundância, essa quantidade de carne, que era completamente inaccessível a não ser para os muito ricos na Alemanha.

Giudicelli - E qual foi o segundo aspecto que lhe chamou a atenção?

Von Braun : - Foi a tremenda mistura racial. Para quem vive como nós hoje nos Estados Unidos é difícil de compreender como é possível que os italo-brasileiros não se separem dos negro-brasileiros, dos judeus-brasileiros- dos japoneses-brasileiros e assim por diante. Nos Estados Unidos, ninguém quer se misturar com ninguém, enquanto que o Brasil é uma nação completamente integrada, sem conflitos sociais de qualquer espécie. Nas nações completamente integradas como o Japão ou a Noruega, onde todos parecem ter a mesma cara e a mesma cor, essa tranquilidade não surpreende ninguém, porque mais ou menos todos parecem ser a mesma pessoa. Nos Estados Unidos, entretanto, que têm a mesma variedade de pessoas e tamanho mais ou menos igual, sendo, portanto, bem parecido ao Brasil, a homogeneização é impossível, conforme todos sabemos. Deve ser algum milagre essa completa integração brasileira, para a qual não consigo encontrar explicação


Giudicelli : - E depois disso ?

Von Braun - O terceiro e igualmente espantoso detalhe é que, segundo me revelaram no Brasil, essa nação parece ser a única que possui quatro colheitas anuais. Nós na Alemanha somente tínhamos uma única colheita por ano e o mesmo acontece em todos os demais países da Europa. Isso significa que o Brasil sozinho pode alimentar todo o mundo se assim o desejar, embora me contem também que os brasileiros são enormemente desperdiçadores de tudo, sobretudo de comida. Imagino que esse desperdício se deva precisamente a seu clima e suas terras extraordinárias, que levam a uma enorme produção que assim se perde.


Giudicelli :  Na nossa entrevista sobre o Brasil, falamos apenas  a respeito de poucas coisas,  mas  imagino que o Sr deva ter tido algumas opiniões mais generalizadas.  Diga sinceramente o que mais lhe agradou e o que mais lhe desagradou. Diga o que quiser !

Von Braun  -  Já faz mais de 10 anos que estive no Rio de Janeiro e certamente muitas coisas ficaram apagadas. O que  você gostaria de saber ?

Giudicelli :  Clima, por exemplo.

Von Braun  : Muito quente. Aquele dia na praia de Copacabana, eu pensei que ia ficar assado. mas quando me molhava no mar, a coisa ficava sensacional.  Por isso  mudei  minha barraca para mais próxima do mar e ai a  coisa ficou perfeita. Mas  não entendo como podem os brasileiros trabalhar com  camisa e gravata na cidade com um calor daqueles.

Giudicelli :  E o público brasileiro, que lhe pareceu ?

Von Braun  :  Em que sentido ?

Giudicelli ;  Como gente;  são simpáticos;? Desagradáveis? Bonitos? Feios?

Von Braun : Não tive ocasião de  lidar ou tratar com o público, de um modo geral. De longe não me pareceram muito bonitos. Embora na praia vi mulheres realmente sensacionais. Mas penso que são mais bonitas que as alemãs simplesmente porque os brasileiros  na praia andam muito despidos e as praias estão por toda a parte. Isso não ocorre na Alemanha, porque as poucas praias que temos estão localizadas no norte da Alemanha e o nosso mar é, geralmente, muito frio. Por isso, nossos turistas fogem para as praias do sul da Itália ou do norte da África. O que achei , sim, é que os brasileiros são muito barulhentos. Em todos os restaurantes que conheci havia um ruído insuportável, os garçons gritando, as pessoas conversando aos gritos e nada disso ocorre na Alemanha, porque  há muito respeito em relação ao barulho  nas ruas e nos locais  públicos. Mas, quem sabe, isso possa ser uma característica de uma nação alegre. Afinal vocês não perderam duas guerras mundiais e continuam a ganhar os campeonatos do mundo em futebol.., ( disse o Dr Braun  com um meio sorriso irônico).

Giudicelli :   E por falarmos em  ganhar coisas, o Sr julga que o Brasil  poderá vir a ser uma nação perigosa? Poderá agredir algum país vizinho algum dia ?

Von Braun : Perdoe-me  expressar-me assim , mas o Brasil não é conhecido nem pelos brasileiros. Apesar desse tamanho descomunal, é como um gigante adormecido, cuja presença ninguém  nota . Eu imagino que o dia em que o Brasil  despertar desse sonho e começar a esticar as pernas, vai logo ameaçar seus vizinhos mais imediatos. Os brasileiros não parecem ter, no entanto, nenhum interesse... em despertar, pelo menos até agora. Diferentemente dos Estados Unidos que têm para começar um triste inverno, que nos obriga a trabalhar grande parte do ano para sustentar a outra. No seu pais vocês têm sol o ano inteiro e o sol e a praia não convidam ninguém a dar duro. Além disso, não apenas  não houve nem parece que jamais haverá nenhum conflito total na América do Sul,  somado ao fato de que todos esses paises estão separados por grandes fronteiras de florestas, de modo que não existem conflitos ligados aos territórios. Como é que  vocês podem iniciar uma guerra contra o Peru, se nem sabem onde se acham suas fronteiras ?

Giudicelli  :  Peço-lhe desculpas, mas  como  um ex-visitante da Alemanha,  nunca me pareceu que seu pais de origem ganhasse um concurso mundial como boa culinária. Agora aqui nos Estados Unidos, mesmo dentro de uma enorme organização como a NASA , a comida oferecida por esta cafeteria  seria considerada no Brasil como de péssimo gosto. Que acha o Sr disso em comparação com um país tão adiantado como  a América do Norte? Porque se come tão mal aqui, um país tão rico  e tão  poderoso economicamente ? O Sr se recorda das nossas  churrascarias no Brasil ? Por que se come tão mal nos Estados Unidos., Ou será que a afirmativa  não é verdadeira ?

Von Braun  -  Como tudo em geral que se afirma sobre os Estados Unidos, a verdade parece sempre estar no meio. entre a verdade e a mentira. É certo  que se come mal. E se come mal, talvez, por um restinho do que eu denomino da influência religiosa protestante, que condena geralmente o pecado do prazer.  Não é que se coma mal. A VERDADE É QUE SE COME  SEPARADAMENTE ( ele acentuou essa última expressão ) Explico-me melhor.  A América foi fundada diferentemente de nações como o Brasil. Para aqui  vieram imigrantes de toda a parte da Europa e se estabeleceram sem contato entre si ( como no caso das 13 colônias americanas que negociavam e conversavam entre si e a Grã Bretanha, mas nunca somente entre si , porque tinham religiões diferentes, gente diferente e mesmo clima e valores diferentes. Disso resultou que  foram assim fundados  restaurantes e comidas diversas.. Como igualmente um inglês diferenciado  devido aos sotaques dos grupos europeus  que aqui chegaram).

Quando você  monta uma enorme organização nacional como a NASA,  como é que  você pode  criar um restaurante que agrade a todo o mundo? O  modo,  portanto, é fazer uma comida mais ou menos insípida, deixando  cada um incluir  o que quiser; o açúcar suficiente para cada gosto;  a abundância de pimenta ou total ausência dela.Mas a comida é muito bem feita e sobretudo limpa. 

Giudicelli - E alguma observação negativa para encerramos esta entrevista?

Von Braun - Devem me sobrar ainda poucos anos de vida e, portanto, não estarei aqui para presenciar esta previsão. Mas minha impressão é que a espécie humana é uma espécie animal condenada a desaparecer, conforme ocorreu com tantas milhares de outras espécies animais ou vegetais, que não souberam se adaptar ao meio ambiente onde viviam. Eu sei que, em última análise, todas as espécies um dia eventualmente irão desaparecer. Mas no caso dos seres humanos, e diferentemente de todas as outras espécies, aquela curiosa e única característica humana que é a de possuir inteligência, isto é, a capacidade de pensar e raciocinar, longe de servir aos homens para melhorar sua condição de vida e felicidade, tem sido utilizada em toda sua breve história neste planeta para a destruição, para o combate, para as guerras e para a morte. Agora, com a invenção da bomba de hidrogênio, com os novos foguetes que estamos fabricando e com os intermináveis conflitos entre nações ou internamente entre os mesmos povos de uma nação, conforme ocorreu sempre na Irlanda, tudo me leva a crer que somos uma espécie condenada. “Mas eu não estarei aqui para ver esse debacle,” concluiu o Dr. Von Braun.

Informações sobre o autor : Nascido no Brasil, o jornalista Mário Giudicelli é professor em Sociobiologia (a ciência do comportameno – Universidade de Connecticut, 1973), tendo trabalhado por mais de 20 anos na Drug Enforcement Administration, a agência federal dos Estados Unidos de controle e policiamento de drogas. Funcionário da Casa Branca, durante 12 anos, foi tratudor simultâneo dos Presidentes George Bush (pai) e Ronald Reagan. Entrevitou inúmeras celebridades como os artistas Kirk Douglas, Clint Eastwood, John Wayne, o diretor Alfred Hitchcock, a atriz Jane Fonda e vários outros; Presidente do Brasil ( Arthur da Costa e Silva), inúmeros deputados, senadores, jornalistas, cientistas de vários países da América Latina; o General Perón (em 1947), Che Guevara, Fidel Castro, Jânio Quadros, Ludwig Erhart da Alemanha Ocidental, Gamal Abdel Nasser, Presidente do Egito, de quem foi tradutor simultâneo, durante cinco anos. Foi locutor da Rádio do Cairo ( entre 1957 e 1962 ) e da Voz da America ( entre 1973 e 1974). tornou-se amigo do cientista alemão Werner Von Braun com quem gravou uma das mais interessantes entrevistas sobre o destino da humanidade (a entrevista com o Dr, Von Braun está disponível para que desejar uma cópia ). Giudicelli foi correspondente de guerra no Terceiro Exército do General George Patton, entre dezembro de 1945 e maio de 1946, foi correspondente no Tribunal de Guerra em Nuremberg durante um ano e meio, sendo o único jornalista ainda vivo que esteve presente em todo o julgamento dos criminosos nazistas.

Release para Imprensa

http://www.comunique-se.com.br/deliverer_homolog/site/preview.asp?id=42653

 


 


 
 
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