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A "Ninguenzada" de Darcy Ribeiro

Professor Mario Giudicelli - BRASIL e USA

Consultor

 

A BELEZA DA “NINGUENZADA”DE DARCY RIBEIRO
 
                                                           Por Mario Giudicelli
                                                           Novembro de 2007
                                                       
 
Por mais de 40 anos, tive uma das mais vibrantes, valiosas e importantes experiências de vida como intérprete simultâneo de conferências, tanto para o Departamento de Estado, como para a Casa Branca ( durante 12 anos) e, frequentemente, para dezenas de outros órgãos do governo dos Estados Unidos;   somando-se a tudo isso possuo um Mestrado em Sociobiologia, o estudo do comportamento animal, obtido numa universidade norte-americana, onde convivi diariamente com um problema de enorme importância ,tanto na vida brasileira, como entre os norte-americanos. Trata-se do tema racismo, que certas pessoas, com pouco conhecimento do assunto, afirmam que o problema não existe no Brasil; todos nós sabemos ser de enorme importância na vida dos Estados Unidos da América
 
Mas a questão, no meu caso, como certamente terá sido igual entre milhares de outros intelectuais, é que nunca tivemos condições  de expor a questão de forma simples, prática e, sobretudo, bem humorada, evitando o terrível perigo de nos deixarmos influenciar pelas emoções humanas, passando a seguir a julgar este ou aquele lado como culpado ou inocente. Só que nessa altura tomei conhecimento da existência de um notável brasileiro, o Professor Darcy Ribeiro, que colocou o problema de uma forma incrivelmente prática. Vou aqui simplificar com poucas palavras o que esse inteligente cidadão disse a respeito do racismo brasileiro, para logo depois, então, procurar dar uma melhor noção do que significa esse comportamento humano e social, que tanto mal aparentemente causa a todos nós, brasileiros, americanos, árabes, judeus ou lá quem seja.
 
O que Darcy Ribeiro nos conta é que no Brasil não existem negros, mulatos, morenos a serem discriminados, mas sim o que ele divertidamente denomina de “ninguenzada”. Mas, note-se, ele não o faz com o uso desse adjetivo, uma declaração racista, como se toda essa gente misturada no Brasil não prestasse para nada e, portanto, sofresse discriminações variadas.
 
O que Darcy Ribeiro teve a intenção de mostrar, foi que no Brasil. como sucede igualmente no resto do mundo com maior ou menor intensidade,  o que ocorre não é uma discriminação contra um tipo particular de individuo, dependendo da cor de sua pele ou de seus traços faciais, mas sim, de grupos menos favorecidos pela sorte, seja porque nasceram no interior pobre da Paraíba, porque nunca foram a uma escola, porque os pais eram pobres, por isso ou por aquilo que tenha sucedido independentemente de sua vontade ou de sua sorte.
 
Ele se refere, por exemplo, ao caso das favelas do Rio de Janeiro, onde existe uma grande quantidade de gente pobre e discriminada, e onde seria impossível pretendermos aplicar a palavra racismo, segundo a nossa versão atual. O que existe, afirma-nos Darcy Ribeiro, é que essa gente toda nada mais é senão a grande “ninguenzada” – grande qualificativo! - em que a maior parte é composta de um público, geralmente sem instrução, moreno, variando mais ou menos entre 30 a 70 por cento de pele escura, e, portanto, de “raça” impossível de ser definida como  branca ou como preta.
 
A discriminação existente se aplica precisamente por parte daqueles que geralmente têm tudo, contra  a “niguenzada” isto é, os que não são ninguém, qualquer que seja sua cor. Essa é a grande diferença  claramente observada nos Estados Unidos, que não se aplica a uma “ninguenzada” ,em particular, que não existe no sentido que Darcy Ribeiro deu ao público brasileiro pobre. Disso resulta que confundimos todos, em termos definidos, o chamado racismo americano com aquilo que, equivocadamente, denominamos de racismo brasileiro, que ao invés, deveria, então, chamar-se de racismo contra a “ninguenzada”.  Essa expressão notável do grande e falecido Professor brasileiro põe um ponto final no esclarecimento dessa clara diferença, permitindo-me, então, a oportunidade de agora mais facilmente explicar a grandiosa diferença entre os dois tipos de discriminação.
 
Faço, inicialmente, um esclarecimento adicional antes de prosseguir no aspecto histórico que- poucos se dão conta. Esse esclarecimento se refere  não que inexista um racismo contra negros no Brasil, mais ou menos, com a forma parecida com a que ocorre nos Estados Unidos. Essa forma de racimo, obviamente, existe; mas o racismo brasileiro não se aplica especificamente aos negros, mas sim a todos os pobres, em que uma razoável maioria é também de negros. Basta indagarmos a todos os porteiros de edifícios de gente de dinheiro, nas praias do Guarujá, se não sofreram e ainda sofrem discriminação todos os dias pelo fato de que são nordestinos sem instrução.
 
                             A ORIGEM DO RACISMO AMERICANO
 
Não disponho nesta coluna de espaço ou tempo suficiente para escrever uma longa tese sobre o racismo americano e, além disso, conto com a perspicácia e sutileza do leitor inteligente para entender uma longa história com uma  simples e breve explicação:
 
O Brasil foi criado, povoado e durante séculos dirigido por uma elite portuguesa, que se iniciou praticamente depois que Don João VI chegou ao Brasil, ao fugir das tropas de Napoleão Bonaparte. O pais foi, portanto, um produto da civilização européia, sempre e claramente definida como uma sociedade nitidamente discriminatória, e um melhor exemplo disso foi a França, até mesmo, após Napoleão Bonaparte. Os grandes senhores feudais e a igreja católica eram os todos poderosos e sempre mantiveram  o povo francês – todo ele sem distinção-- como gente pobre, miserável e sem nenhum acesso ao poder e á riqueza, ou seja a “ninguenzada” francesa. No Brasil, o sistema de governo foi exatamente o mesmo, incluindo  o Império brasileiro de Don Pedro I e Don Pedro II e, posteriormente, a República, em 1889. E os Estados Unidos ?
                  
           A CURIOSA INVENÇÃO PRÁTICA DA DEMOCRACIA
 
Se desejarmos atribuir aos pais da pátria dos Estados Unidos um mérito qualquer, em termos de governo, somos forçados a admitir que a invenção do que chamaram de democracia – imperfeita é verdade, mas sempre democracia - foi seu grande “selling point”. Note-se, entretanto, que tal forma muito mais humanística de “governo do povo para o povo” não se deveu, apenas, ao nobre coração de pessoas como Thomas Jefferson, ou Benjamin Franklin, para citarmos dois dos que criaram a nação norte-americana, em 1779. Mas foi o resultado da óbvia constatação de que ao se reunirem em Filadelphia, estavam ali presentes representantes de 13 Estados todos formados, criados e desenvolvidos, inteiramente, por sua contra própria, sem nenhuma unidade nacional, sem contatos entre eles,  ou subordinação direta, conforme foi o caso brasileiro, com um rei ou imperador maior reinando sobre todos eles. Note-se, igualmente, que na época em que os dirigentes ingleses lutavam contra os guerrilheiros norte-americanos, em solo americano, ao mesmo tempo que o Rei da Inglaterra,  George III,  empenhava todos os recursos na defesa de uma Grã Bretanha ameaçada pelo poder napoleônico, essas 13 colônias já tinham, praticamente, uma independência  relativa.  
 
Mas aqui se situa a distinção clara entre o caráter do povo brasileiro e o norte-americano. Nos Estados Unidos, formou-se uma nação que foi de saída uma colcha de retalhos, um enorme lençol todo cheio de emendas, cada individuo puxando para seu lado o poder nacional. Sem dúvida que hoje isso impede que os Estados Unidos possam ter, por exemplo, uma ditadura militar, pois nenhum estado concordaria em ceder o poder militar a um general que pertencesse a outro estado. Mas a democracia americana criou também um
subproduto inesperado, que foi a formação importante de grupos isolados, cada grupo puxando o lençol do estado em favor dos seus “direitos”, isso incluindo companhias, negócios, religiões, educação e grupos raciais ou nacionais, sem falarmos em duas tristes características das quais, curiosamente, o povo norte-americano é tão orgulhoso, embora para o estrangeiro pareça ser a coisa mais estranha e ridícula que se possa imaginar, isto é, cada americano fala com orgulhos do “hifen” que traz no seu nome, como sendo ora ítalo-americano, judeu--americano, negro-americano ou mexicano-americano. Ou , pior ainda, cada criança dessa nação sofre uma espécie de cômica lavagem cerebral, ao ter que declarar toda manhã antes do começo das aulas , que promete ser... Cidadão dos Estados Unidos, naquele dia, posto que, no dia seguinte, ele terá novamente que fazer a mesma declaração. Já pensou o leitor de um país como o
Brasil ou de qualquer outra nação ocidental, se cada menino tivesse ao entrar na escola que declarar que era leal cidadão brasileiro... e não japonês, todos os dias ?
 
Ora, isso então explica o porquê do racismo nos Estados Unidos e não o racismo contra a “ ninguenzada” de que nos fala Darcy Ribeiro. Esse racismo norte-americano tem um endereço certo : os negros, e isto, porque, eles entraram nos Estados Unidos sob a corrente férrea da escravidão e até o fim do século XIX eram ainda considerados sem direitos e próximos aos animais. Em outras palavras, numa nação em que cada grupo, por qualquer causa, se unia e se defendia para proteger seus “direitos” garantidos por uma constituição, que eles próprios assinaram, só um grupo ficava por fora sem direitos, : os negros. E daí a clara discriminação contra eles, um fenômeno não existente no Brasil, porque o racismo brasileiro era  contra a “ninguenzada,”, por sinal uma forma cultural humana da manutenção e defesa do imperativo territorial, semelhante e/ ou igual  ao que ocorre nas várias espécies animais, conforme amplamente esclarecido e demonstrado por Charles Darwin. Essa diferença, portanto, não faz os brasileiros melhores do que os norte-americanos.
 
O que ocorre é que mostramos, com mais clareza e perfeição, que os brasileiros exibem mais claramente um profundo instinto e comportamento animais  e que, em última análise, tal nação é ainda mais “racista”, pois discrimina contra um número mais vasto do que todos os negros norte-americanos somados. Isto é, se não incluirmos os chicanos do México ou os de fala espanhola, embora os últimos tenham já aprendido a lição e, agora, tratam, igualmente, de se “hifenizar”. para fazerem parte da maioria que jura todas as manhãs que são leais cidadãos americanos....
 
  
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