Sociobiologia>O médico Che Guevara - A luz da Sociobiologia - Primeira e Segunda Partes

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O médico Che Guevara - A luz da Sociobiologia - Primeira e Segunda Partes

Professor Mario Giudicelli - BRASIL e USA

Consultor

 

OS PAISES QUE TINHAM MEDO  DOS ESTADOS UNIDOS E DA URSS    

 

Crônica de MÁRIO GIUDICELLI

                                
MINHA LONGA CONVIVÊNCIA COM CHE GUEVARA
 
Eu já estava  três anos no Egito, quando o Dr. Ernesto Guevara chegou ao Cairo, e minha função foi dar-lhe as boas vindas em nome do governo egípcio.
 
Rememorando; Depois de permanecer no III Exército do General George Patton até o fim da guerra mundial, em 1945;   de ter observado os criminosos nazistas no Tribunal de Nuremberg, durante uns 15 meses, e, finalmente , de completar meu collegee degree na Flórida, um dia deu-me na luneta retornar ao Brasil, coroando uma longa permanência na Europa e nos Estados Unidos. Afinal, nem meu pai, nem minha mãe tinham qualquer ideia do que acontecia comigo. Além disso, naqueles anos, após guerra, as comunicações, sobretudo telefônicas, eram um desastre, e o que me salvava era meu equipamento de rádio amador, pois, dependendo das variadas condições de propagação, por vezes, me comunicava com meus pais e amigos no Rio de Janeiro.
 
De volta ao Brasil, já trabalhando na TV Rio, um dia, creio que por volta de 1955. estava conversando com minha velha amiga a locutora Anita Taranto Matarazzo, uma da mais belas vozes da radiofonia brasileira, quando ela me mostrou um anúncio 
publicado num jornal do Rio, informando que a Embaixada da República Árabe Unida ( Egito de então )  buscava contratar um locutor para seus programas internacionais para a, então. famosa Rádio do Cairo. O candidato deveria falar bem inglês e sua função seria a de transmitir o programa para o Brasil em português. Claro que hoje, em 2009, isso parece coisa de um século medieval, posto que, com as novas tecnologias de comunicação, nenhuma nação pensaria gastar fortunas transmitindo com grande potência, em kilowatts, seu estilo particular de propaganda. Mas naqueles anos da década de 1950, ainda, na realidade, vivíamos na idade da pedra do ponto de vista radiofônico.
 
Movido pela curiosidade, naquela mesma tarde, passei pela Embaixada do Egito, apresentei-me como candidato e em face da fraqueza de algumas centenas de outros candidatos, fui logo nomeado e, em 15 dias, lá estava eu novamente no exterior, só que desta vez no mundo enlouquecido e distante de uma dos principais paises árabes daquela parte do nosso planeta.
 
Vocês, meus leitores brasileiros, podem imaginar tudo, menos o mundo completamente enlouquecido no Oriente Médio. Parti do Rio de Janeiro pela Swissair, e, depois de uma  continuação a partir de Zurich, cheguei ao Cairo, onde encontrei um funcionário da Rádio do Cairo que me esperava. Do aeroporto, ele me levou para uma pensão de terceira classe no centro da cidade e me pediu que, no dia seguinte, eu me apresentasse a um senhor de nome Ahmed Taher, que seria meu chefe na rádio. E, aí, começaram minhas dores de cabeça, pois eu iria logo perceber que não estava num mundo civilizado, mas num mundo doido, completamente amalucado, cheio de todos os piores preconceitos e hábitos sociais.
 
Nas ruas, um trânsito cheio de camelos, burros, carroças,   homens vestidos com longos roupões, as mulheres com os rostos cobertos com um pano.  Um barulho infernal dominava tudo, a sujeira era total, uma multidão se achava em toda a parte e uma intensa propaganda Nasserista ( de Gamal Abdel Nasser, o então ditador, caso você nunca tenha sabido desse detalhe antigo do mundo de 1955) .
 
Na, ainda, jovem idade em que me encontrava e começando realmente a descobrir o mundo, eu era, como a grande maioria, um 
verdadeiro analfabeto sobre o universo, que me cercava. Eu queria aventura, qualquer aventura, e, assim, nem perguntei quanto  iria ganhar ou se esse pagamento seria o suficiente para viver com o conforto razoável, que se esperaria de uma pessoa com as minhas funções.  
 
Além disso, ao chegar ao Cairo, naturalmente, adotei uma posição de humildade, pois quem seria eu para argumentar com o cidadão, que me recebeu no aeroporto, sobre a qualidade da pensão onde me havia colocado. Assim, no dia seguinte, examinando com cuidado o desenho do local onde me encontrava, saí caminhando pela Sharia Sheriff ( rua Sheriff) e, depois, de uns 500 metros, á direita, entrei por uma rua pequena, escura e logo vi o velho edifício da Radio do Cairo. Era um prédio antiquado, de uns três andares acima do andar térreo. Procurei me informar com meu inglês onde acharia o senhor Ahmed Taher e logo o encontrei. Era um senhor que lembrava o velho Padrinho do filme “The God Father”, mal encarado e pouco atencioso.
 
Além de me receber mal, saiu-se grosseiramente reclamando porque eu não falava árabe; logo, a seguir, me deu uma informação generalizada do meu horário de trabalho, do andar onde trabalharia, do nome do funcionário árabe que me passaria o boletim de notícias em inglês, que eu deveria traduzir e depois lê-lo em português às 2h da manhã, hora do Cairo ou 9h da noite anterior, hora do Brasil.
 
Para simplificar uma longa história, que ficará com detalhes para outra ocasião, pois quero referir-me ao meu longo contato com o Dr. Ernesto Che Guevara, concluiria apenas esse breve resumo de minha chegada ao Cairo comentando que, momentos depois de ter entrado no edifício da famosa Rádio do Cairo, senti necessidade de fazer uma visita ao banheiro e, chocado, encontrei o mais sujo e imundo local do Cairo.
 
Aparentemente, ir ao banheiro para alivio de uma necessidade física não tinha, entre os árabes do Cairo , nenhum conceito de limpeza. Eles praticamente nada sabiam para que servia o papel higiênico, e a limpeza das partes inferiores do corpo tinha que ser feita abrindo-se ( com a mão) uma   bica toda suja e imunda que ficava bem no centro do tubo da privada.
 
Surpreendido por essa necessidade, e não encontrando papel higiênico, tive que me socorrer do envelope onde eu tinha guardado o bilhete de passagem usado; não tendo coragem de tocar na bica suja – e praticamente entupida com fezes humanas – arranjei-me de qualquer modo naquele instante emocionante de entrar numa das mais poderosas estações de radio do mundo.
 
Hoje, depois dessas e outras numerosas ocasiões em que me vi face a face com a realidade humana, pude começar a compreender a enorme dificuldade que todos temos em nos comunicar, não apenas pelas diferenças em idiomas, mas, principalmente, pelos preconceitos e hábitos sociais, que as populações humanas têm por todo o nosso pequenino universo chamado terra.  Digo isso, especialmente, no caso dessa imundície, que encontrei dentro da Rádio do Cairo, porque ( e eu nunca imaginaria que isso iria novamente acontecer alguns anos mais tarde ) quando por volta de 1973, mais ou menos, fui aceito para trabalhar na Voz da América, em Washington, onde, por pura casualidade, tive igual necessidade de encontrar o perfumado, limpo e altamente asseado banheiro da Voz da América,  embora, do ponto de vista racional e inteligente dos seres humanos, essa poderosa emissora do pais mais rico do mundo era composta de gente tão ou mais  ignorante sobre a realidade mundial, como o eram os funcionários repórteres da Rádio do Cairo; em outras palavras, se as partes inferiores do corpo humano eram tratadas de forma completamente diferente, o cérebro dos americanos da Voz da América era tão ignorante, cego e estupidamente nacionalista, como os despreparados “jornalistas”  da famosa Rádio do Cairo; então, o expoente, naquele ano de 1947, do modelo mundial de um país que procurava, em ligação com outras iguais nações subdesenvolvidas, encontrar uma forma de evitar o conflito com as duas grandes potências mundiais, dentro do que iriam chamar de os “paises não alinhados”.
 
         A UNIÃO DOS PAISES NÃO ALINHADOS
 
Por volta de 1959/60,   o mundo mostrava-se cada vez mais perigoso. O final da II Guerra Mundial, longe de trazer a paz universal, conforme havia sido igualmente reclamado e defendido pelo fracassado Presidente Wilson, dos Estados Unidos, em 1918, confirmava a tese defendida pela Sociobiologia, de que somos todos, verdadeiramente, apenas mais uma espécie animal tão perigosa ( ou mais ) do que os próprios predadores africanos do Kenia.
 
E o mais curioso, é que os dois novos lados litigantes pareciam esquecer completamente os ensinamentos do grande Filósofo Americano George Santayana, e, cansativa e perigosamente, voltavam a repetir as mesmas formas de agressão, cada lado, naturalmente, acusando o outro de todas as culpas e tragédias prontas para explodirem.
 
Ora, com temor de se virem oprimidas pelos dois imperialismos, outras nações, partindo do ponto inicial de Gamal Abdel Nassser, que queria sentir-se livre para iniciar a construção de sua imensa represa de Assuan, lançaram-se pesadamente numa campanha intensa de uma política de não alinhamento, chamando a atenção do mundo para o Cairo, como sede dessa reunião de políticos defensores da paz mundial.
 
Não vou recontar, aqui, com detalhes o que estava sucedendo naquele ano de 1959/60. Direi apenas que, com o insatisfatório resultado do fim da era hitlerista, armaram-se então no novo mundo dois novos grupos inteiramente opostos: de um lado o mundo capitalista, dominado pelos Estados Unidos e do outro a União Soviética, tão igualmente falsa, que pregava uma estranha justiça social denominada de comunismo. Como todos bem o sabem, hoje, e sempre o soubemos no passado, as duas nações e seus dirigentes se empenhavam apenas em dominar o mundo, ou mais precisamente o que sobrou do mundo chamado de Império Britânico .
 
Eu me achava no Cairo, nesse ano, quando fui chamado pelo diretor do meu departamento da Rádio do Cairo. Segundo ele, o Dr. Guevara deveria chegar à capital do Egito, dois dias depois, para representar seu pais, Cuba, na conferência patrocinada pela República Árabe Unida . Faziam parte dessa curiosa organização a Algéria, a Tailândia, a Índia, o Egito e Cuba. Como era muito difícil encontrar algum profissional de imprensa, que fosse fluente em inglês. espanhol, francês e árabe, alguém se recordou de mim, e, assim, fui logo destacado para receber o dirigente cubano no aeroporto do Cairo, embora, sem que os dirigentes da Rádio o soubessem, o próprio Embaixador de Cuba ali estava para dar as boas vindas ao líder argentino-cubano.
 
Confesso a vocês que eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo ali no aeroporto. O Embaixador cubano era um senhor um tanto atemorizado, pois ele próprio não sabia bem que posição tomar. Afinal, ele era representante do antigo governo cubano, que tinha sido no ano anterior, em 1958, expulso de Cuba; a verdadeira razão porque ele ainda se achava no mesmo posto de embaixador de seu país, se devia, única e exclusivamente, ao fato de que o Egito estava muito longe da política da nova Cuba, chefiada por Fidel Castro. Sua vez, evidentemente, haveria de chegar e o Embaixador cubano no Cairo, tratou, mais ou menos, de procurar manter boas relações com Che Guevara.
 
Eu, por outro lado, que nada entendia de política de não alinhamento, conforme   a coisa era chamada, pensei que uma boa forma de iniciar um relacionamento com o líder cubano seria a de mudar de assunto e comentar sobre a
vida gostosa, que havia tido, na Argentina, alguns anos antes e, possivelmente, discorrer sobre a rara oportunidade que o dirigente cubano teria ao visitar as famosas pirâmides do bairro de Gizza.
 
 CHEGA GUEVARA E FALAMOS SOBRE TANGO ARGENTINO
 
Devo ratificar, antes de mais nada, que eu verdadeiramente não sabia o que iria fazer no momento em que fosse apresentado ao visitante cubano. Minha presença ali não fazia sentido na prática, primeiro, porque eu não era egípcio, embora tendo recebido uma missão ‘oficial” de receber Che Guevara, como representante do governo egípcio; segundo, porque não sabia o que tinha o líder cubano vindo fazer no Cairo e, terceiro, porque eu próprio não tinha a menor ideia do que iria comentar com o visitante.
 
Foi, então, que me passou pela cabeça “virar o jogo”, isto é, ao invés de fazer comentários sobre um assunto que eu não conhecia,   iria comentar a impressão que tive, como brasileiro, ao visitar, pela primeira vez, a bela capital argentina de Buenos Aires. Assim, estaríamos em pé de igualdade e o resto, depois de estabelecida uma ponte de comunicação. iria correr tudo bem, imaginava eu.
 
Che Guevara era um homem de, mais ou menos, um metro e setenta e cinco centímetros de altura e seu rosto, com uma barba desigual e tão crescida como a do próprio líder Fidel, dava a impressão de uma pessoa bem simples, bem rotineira, e ninguém poderia imaginar que estava na frente de um líder revolucionário. Posteriormente, durante nossas várias horas de conversa livre e desembaraçada, observei também que ele parecia ter um certo modo acanhado e temeroso; mesmo quando passeamos pelo conhecido mercado de Khan el Khalil do Cairo, uma espécie de Kashbah do Marrocos, ele parecia temer discutir com os comerciantes árabes das numerosas lojas, para obter um pequeno desconto qualquer.
 
Curiosamente, o que lhe parecia distrair bastante foram os momentos em que, cantarolando juntos, lembrei-lhe a passagem de alguns tangos argentinos e ele não parava de rir, quando ao passar na rua por algumas das mulheres  feias e mal vestidas, eu repetia em espanhol : “chueca, fané y descangallada, la vi esta madrugada salir de un cabaré;.....”
 
AS OPINIÕES DE GUEVARA SOBRE OS ESTADOS UNIDOS
 
Desde os primeiros instantes em que conversei com o líder cubano/argentino, ainda mesmo no aeroporto do Cairo, tive a impressão de que ele não se sentia muito seguro como um porta voz vibrante do seu país, num cenário internacional .
 
Não podia é claro, comentar o que ele teria sido, ao insuflar em seus discursos, o aparente desprezo que tinha em relação aos Estados Unidos, uma matéria que o parecia animar, sobretudo, quando perto de outras vozes latinas. Daí ,que   ao comentar sobre a música Argentina, e, logo depois, lhe revclar que eu só havia estado em Buenos Ayres por uma única semana, dez anos antes, e adicionando, também, que o grande cantor Carlos Gardel havia estado em minha casa em Santa Teresa,  no Rio de Janeiro, trazido por meu tio Fernando, que, então, havia retornado,  de um largo contrato futebolistico com seu time, o River Plate, tudo isso o animou de certo modo a perder um certo ar de timidez.
 
Foi, nesse instante, que me recordei de uma feliz entrevista que havia realizado alguns anos antes com o Dr. Heitor Beltrão , então Ministro da Fazenda do Brasil. Meu chefe na redação de O GLOBO no Rio, com sua pressa e irresponsabilidade, simplesmente, adicionou em minha pauta daquele dia o nome do antigo ministro, desinteressando-se em saber se eu tinha alguma noção de economia, para tentar conversar, inteligentemente, com uma pessoa do gabarito do Dr. Beltrão. Lógico que não recusei o trabalho encomendado e ao ser recebido pelo ministro, antes que ele dissesse qualquer coisa,    expliquei-lhe, claramente : “Dr. Beltrão., antes mesmo de qualquer coisa, quero dizer-lhe que fui designado para entrevistá-lo sobre algo que não tenho a menor ideia, e, por isso, proponho o seguinte : O Senhor arma as perguntas e as responde logo a seguir. Como eu tenho aqui o gravador portátil, que comprei nos Estados Unidos, garanto-lhe que tudo sairá exatamente como o Senhor comentar.   Será que o Dr Beltrão aceitaria o desafio?
 
Em resposta, ele me surpreendeu com esta curiosa frase: “Pois olhe, eu havia dito a minha secretária que não tinha nenhuma vontade de conversar com a imprensa, mas depois de sua clara confissão de não entender o assunto, achei-o um homem honesto e vou dar-lhe exatamente tudo o que o senhor certamente   apreciaria saber”... E o Dr. Beltrão ficou uma hora comigo em seu luxuoso gabinete, proporcionando-me uma excelente reportagem, que no dia seguinte foi comentada por toda a imprensa.
 
Essa foi a mesma forma que adotei ao conhecer o Dr. Guevara, pois o que poderia perguntar-lhe, se a nova revolução não era entendida por ninguém ? Em verdade, o que eu estava fazendo era levar o visitante cubano a fazer perguntas a meu respeito, ao invés do contrário, pois aí estaria em terra firme e nosso diálogo seria natural. O problema é que eu não tinha muita certeza se aquela pessoa tão importante prestaria alguma atenção ou teria curiosidade sobre o modesto brasileiro, que, no Cairo, parecia representar o Presidente Nasser.
 
Mas eu tive sorte. Talvez pela minha juventude, pelo fato de que falava espanhol exatamente como um argentino, o Dr. Guevara passou a conversar comigo com muito maior intimidade e o resto foi bastante simples, Assim,  o levei ao Hotel Nile Hilton onde se hospedou, prometi levá-lo ao bairro de Khan el Khalil e lhe disse que, no dia seguinte, o levaria à residência do já bem conhecido Presidente egípcio.
 
Naquela mesma noite, depois que o Dr. Guevara tinha aparentemente repousado bem, retornei como prometi ao Hotel Nile Hilton e iniciando uma pergunta como quem a faz mais para aprender do que para ouvir uma reposta calculada, disse-lhe
 
GIUDICELLI --- Dr. Guevara, estou aqui no Cairo porque fui contratado no Rio pelo embaixador egípcio e o meu trabalho (mostrei-lhe o gravador de som pesado que tinha na mão ) é o de transmitir para o Brasil o boletim noticioso da Rádio do Cairo. É muito simples, não tem nada de especial; tem início às 2h da manha e vai até às 2h45min; chego em casa por volta das 3h15min, durmo até o meio dia ,e, assim, tenho uma grande parte do dia sem fazer nada, a não ser apreciar as pirâmides, visitar o museu do Cairo, e, ocasionalmente, ir ao bairro de \Khan el Khalil que é, devo reconhecer, uma das mais interessantes áreas desta cidade. Assim, esta tarde, tenho-a inteiramente livre, estou certo que enriqueceria meu programa se o Senhor me contasse um pouco como foi parar em Havana e o porquê de sua vinda ao Cairo,  para conhecer e conversar com o Presidente da República Árabe Unida.
 
-- “Bueno- iniciou Guevara em perfeito sotaque argentino - temos um mundo na América \latina completamente dominado pela poderosa força do capitalismo americano. Esse capitalismo é uma das armas não combatentes do governo em Washington e ele se manifesta de variadas formas. No caso de Cuba, foi uma associação de um grupo cubano altamente corrompido e corrupto, dominado pela máfia americana, geralmente, sob o controle absoluto de imigrantes italianos e com a colaboração de judeus de \New York. Essa gente assumiu o controle de todos os principais hotéis de Havana, por exemplo, como foi o caso do Hotel \Nacional. Não há dúvida  de que seria muito difícil impedir que esses criminosos se apoderassem de todo o jogo, de toda a droga e de todo o turismo americano, particularmente, porque o governo de Batista era um dos seus maiores sócios. E com ele toda a justiça, toda a polícia e tudo com a colaboração da PanAmerican Airways, que sob o manto de Compañia Cubana de Aviación, controlava todo o trânsito de turistas, de negociantes e de criminosos sediados em Miami e em New York ! “
 
GIUDICELLI :  Mas Dr. Guevara, permita-me que eu inclua uma pergunta possivelmente idiótica. Não entendo que mal há nisso . Em Londres, Las Vegas, Montevidéu, e muitos outros lugares , existe
abundante jogo de todas as espécies . Eu conheci Havana em 1955, mais ou menos, e me recordo que o Dr. Prio Socarrás, que era candidato à presidência, se não me engano, defendia precisamente tudo o que o Senhor ataca. O que há de errado no jogo, por exemplo?
 
GUEVARA : Não se trata aqui de condenar ou apoiar o jogo, O que não queríamos era uma Cuba americanizada, e por americanizada digo ser a América  dona de tudo, enquanto que milhares de cubanos morriam de fome....
 
GIUDICELLI - Mas sejamos realistas.   Não conheço nenhum país no mundo em que uma minoria qualquer não domine uma oportunidade do momento. Como o Senhor sabe, ninguém consegue ser um diretor de escola pública em New York, que não seja judeu; na Pennsylvania, se você não é de origem italiana, nunca conseguirá ter alto posto na polícia de Filadélfia. Mas, acho eu, ninguém pensaria em depor o governo desses estados, por essa razão.
 
GUEVARA - É horrível , reconheço, mas em compensação no final são todos americanos e nenhuma potência exterior dá ordens aos americanos.   É preciso notar, também, que toda a indústria açucareira em Cuba era de propriedade americana. Em outras
palavras, nós sempre fomos uma colônia dos Estados Unidos, nossa luta é pela libertação de nosso povo. E, a propósito, agora com a determinação do Presidente Nasser estamos buscando encontrar uma posição neutra, porque temos que evitar o pior, que é um confronto mundial entre os Estados Unidos e a União Soviética.
 
Nesse ponto, nossa conversa desviou-se para o novo alinhamento político mundial encabeçado pelo Presidente da República Árabe Unida ( ou seja o novo país formado pela união – forjada é preciso dizer – entre a Síria e o Egito - ), a Índia, a força aparentemente vigorosa do Presidente Soekarno, da Indonésia e Cuba. Não faço nenhum comentário sobre o que ele me revelou, porque o assunto, hoje, passados tantos anos, está completamente morto, como morta também está a própria União Soviética, o que torna os pontos de vista do Dr. Guevara limitados à era morta em que vivemos.  
 
Por esse motivo,   concentrar-me-ei, apenas, nos temas mais generalizados do comportamento mundial, em que o Dr. Guevara revela – devo acentuar – uma antipatia, um desprezo, uma má vontade generalizada contra os Estados Unidos, muito semelhantes aos sentimentos exibidos pelos revolucionários mexicanos, na década de 30, contra o governo americano de então.
 
O que desde logo me pareceu perfeitamente claro em Che Guevara, como, curiosamente, em todos os outros políticos mundiais tanto de esquerda, como de direita ou lideres religiosos extremistas, foi sua completa, total, absoluta dedicação a sua causa, qualquer que ela fosse. E isso foi o que, desde logo, desmanchou meu prazer em conhecer mais intimamente aquele reconhecido líder mundial, pois ele e seu comportamento poderiam ser aplicados perfeitamente a Gamal Abdel \Nasser, a Billy Graham, a Tiradentes, a \Napoleão Bonaparte, e, assim, eu teria muito pouco a ficar conhecendo, pois bastaria ler as realizações de qualquer outro líder da mesma estirpe, para que tudo mais se encaixasse perfeitamente bem.
 
UMA ANALISE SOCIOBIOLÓGICA DE ERNESTO GUEVARA DE LA SERNA
 
1 - Em todos esses grandes líderes mundiais ocorre um mesmo fenômeno físico, que parece marcar sua futura personalidade. Isso pode ser causado por uma tosse impertinente, por andar caminhando como manco, por ser muito mais baixo que a média, ou por ter tendências neuróticas.
 
2 - Esses desvios ou desequilíbrios, posteriormente, vão afetar o comportamento racional do indivíduo , alterando o que eu chamaria de estado emocional normal. Uma forma habitual, a propósito, de mostrarmos a diferença que existe entre um doente psiquiátrico e um “doente” sociobiológico, é que na psiquiatria, o individuo é um doente., que tem um comportamento anormal. No caso do “doente” sociobiológico, ele tem um comportamento anormal, embora seja um indivíduo normal.
 
Especifiquemos mais claramente. Um doente psiquiátrico, por exemplo, teme ser assassinado, teme alturas, vive constantemente obcecado contra vermes, baratas ou,   como  a religiosa, conhecida como Santa Thereza D’Ávila, que se apaixona perdidamente pela figura imaginária de Cristo, e, transbordante de amor, escreve um famoso poema de amor e paixão, que denota claramente uma forte atração sexual completamente distorcida. 
 
A propósito, tais distorções de comportamento possuem causas físicas, como sociais, de educação de pressões diferentes, etc etc etc. A famosa Santa espanhola, por exemplo, embora sendo uma mulher de alta sociedade, culta e, sobretudo, com um desenvolvimento físico saudável e normal, viu-se oprimida pela sociedade local onde vivia, exibindo, desde logo, um desequilíbrio emocional muito semelhante ao leão africano, que preso na artificialidade de uma jaula de um circo, começa a passear de um lado para o outro, sem parar, arranhando e sangrando seu nariz.
 
No caso do Dr. Guevara, afirmo com certa convicção, sua personalidade se formou pela circunstância de que sempre foi atacado desde menino por uma fortíssima asma, que sempre o desesperou, pois, impulsionado por um corpo forte e possuindo os meios econômicos de viajar, procurava escapar de si mesmo ( inclusive preferindo países que tivessem capitais ou cidades muito altas). Outra circunstância, que parecia importuná-lo, era o fato de que sendo mais baixo que a média, ele se sentia complexado perto, sobretudo, dos norte-americanos, geralmente bem mais altos que a média do latino americano. Note-se, a propósito, que em nenhum momento estou pretendendo atribuir ao Dr. Guevara qualquer instinto de brutalidade, de violência.
 
Enquanto esteve ao meu lado, por exemplo, foi sempre de extrema ternura e cavalheirismo, chegando numa certa ocasião a ter os olhos com lágrimas, quando lhe cantei de memória um tanto antigo denominado “Cuesta Abajo”, que lhe causou muita emoção. Reconheço que a Sociobiologia é uma ciência Darwinista muito nova ( e extremamente combatida tanto pela direita política como pela esquerda) e todo o seu contexto exigiria várias páginas, o que nos afastaria do propósito de tentar explicar a personalidade do Dr. Ernesto Guevara, seguindo uma visão mais moderna e científica e, por isso mesmo, completamente neutra de emoções humanas .
 
A aproximação de Che Guevara com Fidel Castro se deu, de certo modo, por acaso. Guevara se achava , como um médico local e em seu perene anti-americanismo, tratando de ferimentos de soldados castristas, ao mesmo tempo que os animava a recuperar a saúde rapidamente. Fidel se impressionou, em primeiro lugar, por seu claro e bonito sotaque argentinado de falar espanhol e logo depois, ao ver o dedicado trabalho do médico argentino, desenvolveu imediatamente uma simpatia pessoal por aquele que todos chamavam de Che, uma expressão bem portenha usada por Guevara a todo instante.
 
       A VONTADE DE MATAR E O “PAREDON”
 

Conforme todos os que já estiveram na guerra podem muito bem testemunhar, guerra é guerra. Em tempos de paz, basta um arrastão na praia com meia dúzia de bandidos dando tiros para todos os lados, para que todos ou fujam atordoados ou se esforcem cegamente na brutalidade de matar os bandidos, que foram desarmados.
 
Eu, pessoalmente, nunca cheguei a atingir os postos de combate entre americanos e alemães no fim da II Guerra Mundial, pois, conforme expliquei em artigos anteriores, tive a sorte de ter a meu lado um coronel americano de nome Lloyd George, que conhecendo minha alma de anti-herói, preferiu que eu recebesse os boletins de combate com fotos possíveis e reais, todas as tardes, deixando-me livre depois para dormir em meios às pernas de uma belíssima alemã.
 
No fenômeno da guerra, matamos a maior parte das vezes sem sequer enxergar o inimigo. Matamos, como atiramos contra um pássaro pendurado num galho de árvore há uma centena de passos. Nas ocasiões em que temos, por qualquer necessidade,  de enfrentar um corpo a corpo, não matamos por ódio, mas matamos por medo do que estamos fazendo e matamos para que não nos matem primeiro.                                  
 
Mas o que nos torna muito mais perigosos que as outras espécies animais, é a crueldade com que matamos aqueles que não têm meios para se defender, como é o caso dos milhares de cubanos que, presos numa espécie de poste, foram fuzilados no que depois ficou conhecido como o “paredon” .
 
Ora, eu estava ali, ao lado de um cidadão calmo, tranquilo, amistoso e simpático, que há apenas uma semana tinha dado ordem para o assassinato frio de vinte e cinco   cidadãos cubanos, considerados pelo Dr. Guevara como inimigos do povo cubano. Claro que não recebi nenhuma  encomenda de um cidadão no paraíso para me tornar crítico julgador do revolucionário cubano, mas naquele instante não pude resistir à vontade controlada de comentar
 
GIUDICELLI – Mas qual teria sido então sua determinação interna de mandar matar tanta gente, se ao comentar aqui com o Senhor sua visita tão amável e lutando pela libertação de sua nova pátria, o Senhor cometeu os mesmos crimes que seus adversários ? Qual é o verdadeiro Che Guevara´. O que está aqui lutando por uma causa nobre, ou o lutador Guevara que matou gente impiedosamente no famoso “paredon” de Havana.?
 
GUEVARA :   “tenemos que matarlos ( disse ele em bom espanhol) porque si no los matamos ellos nos matan a nosotros...”
 
Vi, portanto, que estava na frente de um ser humano, exatamente igual a qualquer um de nós. O Dr. Guevara era um líder revolucionário como outro qualquer: em nome da salvação de vidas... acabou por matar centenas de pessoas, e, assim, naquele instante, interrompi meu gravador, porque não levaria para o estúdio da Rádio do Cairo nenhuma novidade especial. Só que não imaginava que algum tempo depois o próprio Che Guevara, tão endeusado no mundo inteiro, iria morrer tristemente nas selvas da Bolívia, por uma bala de algum soldado a serviço de um governo favorável aos Estados Unidos, que, certamente, também teria dito em espanhol com sotaque boliviano : “ si no lo matava, el me hubiera matado... ”
 
Release para Imprensa
 
 

 

 

 

 


 


 
 
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