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Um pouco de História de Vida - A Morte de Robert Kennedy

Professor Mario Giudicelli - BRASIL e USA

Consultor

 

                                                         Por MÁRIO GIUDICELLI

                                                          JUNHO DE 1998

 

 

 

                O ASSASSINATO DE ROBERT KENNEDY

 

         O espetáculo tinha sido grandioso. Acostumado aos velhos tempos no Rio de Janeiro, quando a torcida vitoriosa depois de um jogo de futebol no Maracanã  vencia o Flamengo de goleada contra seu adversário  e logo após seguia para a Avenida Rio Branco aos gritos e com  muita música para celebrar a vitória, da mesma forma me senti aquela tarde quente de Los Angeles, quando, em passeata, seguimos todos  ao longo da Century Boulevard  a caminho do  belo hotel Ambassador,  onde aliás estávamos todos hospedados.  Robert Kennedy tinha acabado de vencer as primárias da Califórnia e tudo estava indicando que, indiscutivelmente, ele poderia certamente se eleger  como o novo presidente dos Estados Unidos. No hotel, Kennedy pretendia, além de receber a imprensa,  celebrar com os amigos o grande sucesso que estava obtendo. A extraordinária aura de simpatia, paixão e amor em volta do nome Kennedy, naquele ano de eleição presidencial era realmente de espantar.  Embora  fosse relativamente baixo – ele deveria ter no máximo  1 metro e 72 centímetros, uma altura baixa para a média do homem americano - tinha no rosto, entretanto, algo de enormemente atrativo ( ou pelo menos assim se observava por toda a parte ), sem falar no curioso e divertido sotaque da Nova Inglaterra, que para uns, como o infame Sr. J.Edgar Hoover, soava como coisa intolerável, mas para outros eras pura doçura e simpatia. Mas naquele momento de enorme alegria, ninguém estava preocupado com isso.  Os gritos não cessavam e embora a famosa Century Boulevard, como aliás ocorre com a imensa maioria das avenidas de Los Angeles, estivesse praticamente deserta, inclusive com pouco trânsito de automóveis, o anúncio de que Kennedy estava a caminho do hotel  provocou um raro movimento de pedestres que aos gritos clamavam pelo nome do candidato democrata. O próprio hotel Ambassador, no meio de uma avenida que levava do lado do nada para o lado do outro nada, tampouco atraia público, porque ali só se transitava  com carro  e praticamente não existiam  lojas  ou comércio, já que a área era praticamente ocupada por edifícios comerciais ou algumas igrejas de ritos raros e incomuns . Na frente do Ambassador à esquerda,  via-se uma enorme igreja ortodoxa grega, logo seguida de um enorme templo judeu, mas salvo nas horas do dia quando os frequentadores ali apareciam, a Century Boulevard não via praticamente pedestres . Hoje, passados já tantos anos  depois desse triste acontecimento, não me recordo exatamente porque acabamos todos por entrar pela cozinha, ao invés da entrada principal. O Hotel Ambassador era um imenso edifício, com igual imensa entrada pelo seu lado direito e tendo do lado esquerdo, numa área que era murada na  época, uma grande série de confortáveis cabanas, umas inclusive ao lado de sua bela piscina. Mas o mesmo caminho pelo lado direito que nos levava à entrada principal, se seguíssemos apenas mais alguns metros na frente, chegávamos ao que seria a cozinha, que não era visível do lado de fora. Kennedy saltou de seu carro e me deu a impressão de que seu objetivo era ir ao banheiro. Os que o acompanhavam ficaram para trás e ele desapareceu por um corredor. Naquele dia eu tinha estado muito ocupado, porque Kennedy tinha feito dois longos discursos para dois grandes grupos de mexicano-americanos na parte este de Los Angeles e como ele preferia a interpretação simultânea, depois que verificou  em Washington que eu lhe proporcionava um contato muito mais direto e completo com seu público de língua espanhola com esse sistema de comunicação,  o método o impressionou consideravelmente e, habilidoso e esperto como era, deu-se conta de que assim poderia alongar-se mais, comunicar-se melhor, do que o cansativo e menos produtivo sistema de interpretação consecutiva, isto é, em que o orador fala, pára, espera que as frases sejam traduzidas e depois reinicia o mesmo método. Isto quer dizer, que além de distrair a atenção do publico,  rouba também a presença do orador que fica parado  olhando para o público, enquanto  aguarda que seu intérprete termine de apresentar sua versão em português ou espanhol.

 

 

 

No meu caso, Kennedy  rapidamente deu-se conta de que eram minha voz e minhas frases que eram entendidas e ouvidas por seu público “chicano” de Los Angeles.  O que ele , sim,  fazia e o fazia com brilho, era gesticular e mover seus braços e as mãos, deixando o som por minha conta. Ele falava apenas para ser ouvido por mim, mesmo porque compreendia que se elevasse a voz,  isso só prejudicaria a performance do político, uma vez que misturadas, as duas vozes ao mesmo tempo só causariam confusão. Ora, ao chegar ao hotel, minha verdadeira intenção era apenas a de retornar ao meu quarto-cabanaque se achava do outro lado do edifício e descansar. Não tinha pessoalmente nenhum interesse em ficar, ou procurar ficar ao lado de Robert Kennedy, primeiro porque eu ali nada teria que interpretar, de vez que estávamos numa área cem por cento norte-americana. Em segundo lugar,  eu era, apenas, um intérprete simultâneo do Departamento de Estado que, embora naquele momento estivesse trabalhando fora do meu contrato e nem sequer estava sendo pago pelo governo americano diretamente através do Language Services, sabia que nada mais teria que fazer naquele dia.  Mas como todos saltamos de nossos carros no mesmo local e como todos igualmente pensamos que Kennedy tinha simplesmente ido ao banheiro e que voltaria por ali, saltei também do segundo carro onde me achava atrás dele e entrei pelo mesmo corredor.  Na  cozinha ainda não havia muita gente, mas as várias mesas estavam cobertas com  vários tipos de doces, confeitos, gulodices variadas, que logo despertaram minha atenção. Havia um prato cheio de camarões grandes que aparentemente estavam ali para quem quisesse prová-los e eu simplesmente não fiz cerimônia e comecei a comê-los. Instantes depois coloquei uns oito camarões grandes num envelope de plástico e  com o pacote na mão, segui pelo corredor relativamente curto que dava para o salão de entrada, embora nesse curto trajeto eu já tivesse alguma dificuldade para me mover, porque todos pareciam caminhar na mesma direção ( deveria haver umas quarenta pessoas no local). No ponto em que eu caminhava, com tantas pessoas na minha frente, não dava para perceber que Kennedy já  caminhava bem na minha frente e na mesma direção, tudo em meio a vivas e gritos de aclamação que não cessavam. De repente, entretanto, ouvi uma série de estouros rápidos, que lembravam algo mais forte do que os fogos que compramos nos dias de São João no Rio de Janeiro. Logo a seguir ouvi muitos gritos e como o corredor do lado direito onde eu me achava estava relativamente livre, corri por ele e pude chegar até uns 3 metros de distância onde, no chão, já estava estirado Robert Kennedy. Dei-me conta também, apesar da enorme confusão que se seguiu, que uma pessoa, cuja identidade depois fiquei conhecendo como sendo a de  Sirhan Sirhan, um palestino de vinte e poucos anos, era o autor dos tiros que haviam derrubado o senador Kennedy. Nos primeiros instantes, possivelmente uns 15 segundos, dei-me conta que ali eu não seria de nenhuma utilidade  para ninguém. Embora um bom número de pessoas naquela altura possivelmente já me conhecia e sabia   a função que eu exercia, na verdade eu não fazia exatamente parte da comitiva no sentido puramente político. Além disso, havia como que uma espécie de “empurra empurra” todo o tempo, cada um querendo mostrar-se mais íntimo e mais chegado ao homem que tudo indicava viria a ser o próximo presidente dos Estados  Unidos. De minha parte,  eu não tinha nenhum  plano de ser uma espécie de “puxa saco” do senador, uma porque me achava demasiado pequeno para merecer muita atenção da elite do partido democrata. Outro motivo era que, sendo um estrangeiro, achei que era melhor manter o que os americanos chamam de um  “low profile”, isto é, um, perfil discreto, porque sabia muito bem que bastaria qualquer falha profissional no meu trabalho, para que logo alguém inventasse alguma forma de discriminação que prejudicasse o dinheiro que ganhava como intérprete.  Por outro lado, ao ver o senador no chão, depois de ter recebido tantas balas no corpo e um orifício sangrando de bala que puder ver na sua cabeça bem visível e que parecia mortal, me dei conta que os meus dias como intérprete  de Robert Kennedy tinham terminado.  Por essa razão, sai discretamente do local e sem nenhuma dificuldade, porque todos queriam entrar no  corredor que levava à cozinha, enquanto que eu apenas queria sair dali.

 

 

Assim, entrei no meu apartamento,  despi-me e me deitei, ligando logo a seguir a televisão.  Eu agora já não mais seria participante ao vivo e sim apenas mais um telespectador ouvindo as últimas  notícias. Por outro lado, com  minha modesta máquina portátil de escrever Underwood (naqueles tempos ainda não existiam  computadores) limitei-me a anotar toda minha estória relacionada com meu conhecimento de Robert Kennedy e tudo o que pude ficar conhecendo da vida íntima e particular desse incrível político da família Kennedy. Devo dizer, a propósito, que o Comité que lançou o nome de Robert Kennedy para presidência foi o órgão que regularmente pagava meus serviços de intérprete . Como  o leitor bem pode imaginar, esse comité  se desfez instantaneamente no dia em que ele foi morto. Dessa forma, meu último pagamento dos 15 dias finais ( se não me falha a memória, de $1.200.00,  deixou de me ser enviado e até hoje não consegui encontrar ninguém que quisesse se responsabilizar por esse compromisso. Coisas da política...  


 


 
 
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